MST e Marcha Mundial das Mulheres lançam inteligência artificial para fortalecer a luta no campo
18/05/2026 por comunicadoras

A Livraria Expressão Popular, em São Paulo, ficou lotada na tarde deste sábado (16). Militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e de outras organizações populares ocuparam cada canto disponível, curiosos e animados para conhecer a IARAA — Inteligência Artificial da Reforma Agrária e Agroecologia. O lançamento da versão Beta da ferramenta aconteceu logo após a apresentação do livro Além do Vale do Silício: Inteligência Artificial com Características Chinesas, do pesquisador Jeff Xiong, e reuniu falas políticas, demonstrações ao vivo e a apresentação da equipe que construiu o projeto.
A IARAA é uma plataforma de chat interativo desenvolvida pelo MST, a MMM e a Associação Internacional para Cooperação Popular (Baobab) com os objetivos de ampliar o acesso ao conhecimento agroecológico, fortalecer a organização de camponesas e camponeses nos territórios e unir as lutas por soberania alimentar e soberania tecnológica. Diferente das ferramentas de inteligência artificial generalistas controladas pelas grandes corporações, a IARAA opera a partir de uma base de dados própria, construída e validada coletivamente com livros, artigos e documentos técnicos indicados por militantes especialistas em agroecologia.
Tecnologia para produzir alimento saudável
João Pedro Stédile, da direção nacional do MST, abriu as falas situando a iniciativa nas disputas atuais pelo modelo de agricultura. Para ele, a agricultura familiar camponesa só tem futuro se adotar a agroecologia como concepção de vida e de produção — e a disputa tecnológica faz parte desse caminho. “O agronegócio está aplicando em tecnologias para diminuir a mão de obra, aumentar a taxa de lucro e explorar mais a natureza; nós queremos aplicar essa mesma tecnologia, porém tudo ao contrário: para produzir alimento saudável, para respeitar a natureza”, afirmou.
A IARAA nasce de um processo de articulação internacional que os movimentos populares constroem ao longo dos últimos anos com a China. “Esse esforço é do compromisso da esquerda. É um processo de construção unitário”, ressaltou Stédile. Uma brigada organizada pelo MST esteve no país para aprender com os avanços tecnológicos desenvolvidos a serviço do povo. Dessa parceria já vieram bioinsumos, máquinas adaptadas à escala da agricultura familiar e, agora, a inteligência artificial. Para João Pedro, a ferramenta precisa ser entendida como parte de um esforço coletivo mais amplo para “revolucionar nossos métodos de fazer política e acelerar a destruição do capitalismo”.
Uma disputa política e tecnológica
Tica Moreno, militante da Marcha Mundial das Mulheres, trouxe a dimensão estratégica da tecnologia como campo de luta. “Estamos passando por uma mudança de era tecnológica que tem como característica uma centralidade dos dados como fator de produção”, compartilha ela, a partir dos aprendizados da brigada na China. Segundo ela, “a disputa sobre essa tecnologia da inteligência artificial está transformando a nossa relação com o trabalho e entre nós mesmos”.
A IARAA funciona combinando a capacidade de processamento de linguagem dos modelos de inteligência artificial com uma biblioteca digital curada pelos próprios movimentos: “a IARAA não vai recomendar agrotóxico. Ela vai trazer respostas a partir da base de conhecimento produzida pelos movimentos, organizações populares e instituições de pesquisa sobre agroecologia”, garantiu. Essa base de conhecimento se amplia na medida em que outras organizações se aproximam da iniciativa, como o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e a Articulação do Semiárido (ASA), que já contribuíram com o envio de conteúdos específicos.
A saída, para Moreno, passa necessariamente pela soberania digital articulada à soberania alimentar: “vamos buscar capacidade de disputar outro caminho de desenvolvimento da tecnologia, e esse caminho envolve o código aberto”. A chegada dos modelos de código aberto elaborados na China, além de abalar o mercado tecnológico norte-americano, mostra que é possível construir luta no campo digital fora do eixo das big techs.
Modalidades de pesquisa
Durante a atividade, três militantes demonstraram ao público os diferentes perfis da ferramenta. O modo Semeadura é voltado para quem está diretamente no campo, com respostas mais diretas e linguagem acessível; o Mutirão apoia a assistência técnica e o trabalho coletivo, sugerindo metodologias; e o Quintal Produtivo é destinado ao estudo e à pesquisa, com respostas mais extensas, referências bibliográficas e base teórica. O tipo de resposta muda, mas a base política e o conteúdo são os mesmos.
Ao final, as pessoas presentes puderam conhecer a equipe de militantes que construiu a IARAA e que aprendeu, na prática, engenharia de prompt, curadoria de conteúdo e desenvolvimento de fluxos algorítmicos a partir de uma perspectiva política popular. Apesar de ainda se encontrar em fase de testes, a ferramenta já está disponível para uso no endereço https://baobab.iapc.group/pt/iaraa/. Como disse Tica Moreno, “a IARAA é uma e é a primeira de outras que virão”.