As feministas denunciam: “Tarcísio, inimigo das mulheres!” no lançamento da campanha estadual em São Paulo
29/06/2026 por @admin

No auditório da APEOESP, em São Paulo, cerca de 140 mulheres militantes de 42 organizações e movimentos se reuniram na noite do dia 18 de junho, ao som de música muita luta para o lançamento da campanha estadual “Tarcísio Inimigo das Mulheres!”.
Uma batucada feminista abriu oficialmente a noite no auditório do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP) num ambiente de encontro e fortalecimento do campo feminista e do movimento de mulheres, com companheiras de diferentes movimentos e articulações da cidade e do estado.
A campanha “Tarcísio, inimigo das mulheres” é a manifestação da denúncia feminista organizada contra a política do governo estadual de Tarcísio de Freitas, do partido Republicanos. A construção reúne coletivos, organizações e militantes em torno da defesa da vida das mulheres no estado de São Paulo. Para a Marcha Mundial das Mulheres essa luta está diretamente ligada agenda da economia feminista, que parte do trabalho doméstico e de cuidados que sustenta toda a sociedade, e a defesa dos bens comuns e dos territórios livres de violência.
No lançamento foram apresentados os pontos chave da denúncia sobre o governo estadual que a campanha aborda. Os números partem de uma constatação: São Paulo tem o maior orçamento estadual do país, com R$ 382,3 bilhões previstos para 2026, e ainda assim concentra desigualdades.
A MMM São Paulo também publicou um jornal com análises e dados importantes para esse diagnóstico. O estado registrou 266 feminicídios em 2025, o maior índice desde 2018, o equivalente a uma mulher assassinada a cada 33 horas.

Disputar o orçamento público é luta feminista!
A campanha relaciona esses dados a escolhas orçamentárias. Denunciamos o corte de 54,6% nas verbas da Secretaria das Mulheres e apontou que, dos R$ 38,2 milhões previstos para o combate à violência em 2025, apenas R$ 10 milhões foram efetivamente executados, quase três quartos do recurso ficaram parados. Essa é uma escolha que contribui para a morte de mulheres.
O diagnóstico também passou pela saúde e pela educação. Lembrou o fechamento e a reabertura, sob pressão dos movimentos feministas, do Hospital Nova Cachoeirinha, referência em aborto legal, e a redução de leitos sob gestão estadual entre 2022 e 2025. Na educação, citou o anúncio de corte de R$ 10 bilhões no início do governo, a expansão das escolas cívico-militares e a queda do IDEB no ensino médio.
Trabalho de cuidados e a luta pelo fim da escala 6×1
Um dos eixos centrais da campanha é trazer para centro do debate o trabalho doméstico e de cuidados, realizado em sua maioria por mulheres negras e periféricas. Para a MMM esse trabalho sustenta a economia, precisa ser reconhecido, redistribuído e socializado entre toda a sociedade e o Estado, pois as mulheres acumulam jornadas e ainda enfrentam salários menores: no serviço público estadual, professoras da Educação Básica I começam com remuneração 46,5% abaixo do piso nacional, e o vale alimentação das servidoras segue em R$ 12,00.
A defesa do fim da escala 6×1 combinada com políticas públicas de cuidado é um caminho concreto para um horizonte de transformação. Para a campanha, reduzir a jornada só beneficia as mulheres se vier acompanhada de creches, centros-dia e restaurantes públicos, porque, sem isso, mais tempo em casa pode significar mais trabalho não remunerado. Pelo fim da escala 6×1, por políticas públicas de cuidado para todas as pessoas!
As mulheres, territórios e os bens comuns não são mercadoria
A campanha denuncia a privatização da SABESP, que abastece milhões de pessoas da capital ao interior, associando-a a esgoto despejado no Rio Tietê, tarifas acima da inflação desde 2022 e cortes de água que recaem primeiro sobre os bairros mais pobres. Para as mulheres, sobra o trabalho de organizar a casa em torno da falta d’água e de cuidar de quem adoece com o saneamento precário.
Os territórios rurais também estão em disputa. Com base na Lei 17.557/2022, sobre regularização de terras, o governo estadual coloca à venda terras públicas devolutas com desconto de até 90% cerca de 720 mil hectares, mais de R$ 18 bilhões entregues ao grande capital. Nessas regiões, como o Pontal do Paranapanema, o Vale do Ribeira e o Sudoeste Paulista, comunidades quilombolas, indígenas e camponesas seguem resistindo, e foi a mobilização popular que conseguiu suspender judicialmente uma audiência pública sobre a venda. “A água, os territórios e as mulheres não são mercadoria”, afirma a campanha.
Apenas o início de muita luta para construir e fortalecer
As organizações e movimentos presentes também se manifestaram com falas e denúncias a partir das lutas construídas nos territórios. Além do enfrentamento à violência patriarcal e do conservadorismo, a denúncia da militarização e vigilância nas escolas, favelas, campos e comunidades também foi reforçada, assim como as disputas que se dão nas lutas nos territórios rurais, indígenas e quilombolas, como reforçou Renata Reis, da MMM-SP:
“O Tarcísio é inimigo da vida, da natureza e das mulheres. Não podemos esquecer da política do EJA na educação, uma política muito importante para as mulheres, porque muitas mulheres que vivem anos em situação de violência dependem de reestruturar sua vida com uma educação de qualidade e, quando fecha a EJA, fecha futuro. Fecha futuro dessas mulheres, fecha futuro das juventudes que precisam trabalhar e estudar para poder viver. Ele privatiza e militariza as escolas, faz propaganda falsa nas redes sociais, mas nós vivenciamos essas escolas, nós sabemos o que é essa realidade. O Tarcísio vende as nossas vidas atacado, na martelada, como a gente viu. Mas nós, mulheres, construímos as políticas no cotidiano porque a gente sustenta a vida com o nosso trabalho, seja o trabalho doméstico de cuidados, seja o trabalho remunerado. A gente sustenta essa economia e por isso que a gente vai virar o jogo!”
Também foi apresentada a identidade visual da campanha que tem como objetivo fazer a denúncia e impulsionar a mobilização popular das mulheres. Alguns materiais foram distribuídos: o jornal da MMM e o manifesto impressos, além da apresentação do site da campanha e materiais de comunicação digital.
O lançamento da campanha foi ponto de partida, e as feministas convocaram todas as organizações e movimentos presentes à ação: com a promoção do lançamento da campanha em seus territórios e articulação de atividades diversas de mobilização e organização das denúncias em todo o estado a partir dos materiais, como rodas de conversa, debates e espaços de formação de comitês da campanha nos próximos meses.
Seguiremos em marcha até que todas as mulheres do estado de São Paulo estejam livres do governo “Tarcísio, inimigo das mulheres!”
Fotos: Noelly Castro e Diogo Zacarias












