Brigada Internacional das Mulheres Cilia Flores pela Paz: a resistência tem rosto e sangue de mulheres
16/03/2026 por @admin

Cerca de 120 mulheres vindas de movimentos sociais, coletivos e partidos de esquerda de 22 países da América Latina e Europa participaram do primeiro encontro das Brigadas Internacionais das Mulheres Cilia Flores pela Paz, que aconteceu na Venezuela, entre 6 e 8 de março de 2026. A Marcha Mundial das Mulheres esteve presente com companheiras da Argentina, Brasil, Cuba e El Salvador, além da Venezuela.
Os objetivos centrais do encontro foram exigir a liberdade da primeira combatente, Cilia Flores, e do presidente Nicolás Maduro, denunciar o impacto brutal das sanções e do bloqueio na vida das mulheres venezuelanas e construir uma rede global de solidariedade feminista pela paz e pela soberania. Esse momento foi também um ato de solidariedade, cooperação e reafirmação dos valores de justiça social, paz e unidade dos povos, que sustentam o projeto da revolução bolivariana.
A abertura do encontro, na noite do dia 6, teve falas das ministras da Mulher, Yelitze Santaella, da Ciência e Tecnologia, Gabriela Jiménez, de parlamentares mulheres e integrantes de diversas instâncias do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), como Tania Díaz, secretária de Assuntos Internacionais, Diva Guzmán, Yelitza Santaella, Carolys Pérez, María León, Iris Varela e Blanca Eekhout, presidenta do Instituto Simon Bolivar de Venezuela.
Nesse momento inicial, foram compartilhadas informações sobre a trajetória política da advogada Cília Flores, sua liderança estratégica na assessoria jurídica de Hugo Chávez, após o levante militar de 1992, sua eleição como deputada nacional e primeira mulher a liderar a Assembleia Nacional e a ser Procuradora da República. Flores era chamada por Chávez de “advogada da revolução”.
Outro aspecto destacado na abertura foram os impactos dos 13 anos de bloqueios e sanções econômicas do imperialismo estadunidense contra a Venezuela, que resultou na morte de milhares de crianças, adultos e idosos por falta de acesso a vacinas básicas, medicamentos como insulina e alimentos. No centro de tudo está a disputa do território venezuelano que contém não apenas petróleo, mas território com minerais como terras raras e fontes de energia fundamentais para instalação de centros para mineração de dados e desenvolvimento de inteligência artificial (IA) por corporações tecnológicas como Meta. Apesar de tudo isso, Venezuela resiste e aprofunda sua soberania e independência. Na área de ciência e tecnologia há 52% de participação de mulheres, que atualmente lideram 1.117 projetos e pesquisas científicas.
A importância da unidade e da resistência do povo venezuelano diante das adversidades e do diálogo para proteger a vida e a Revolução Bolivariana foram afirmadas. Nesse sentido, são fundamentais as consultas populares e os encontros das mulheres na solidariedade, na cooperação e no diálogo.
As consultas populares são um um modelo de democracia direta e participativa e são desenvolvidas em 5.336 circuitos comunitários, onde as comunidades debatem e priorizam projetos para atender às suas principais necessidades. No domingo, 8 de março, foi realizada a primeira consulta popular nacional desde os ataques de 3 de janeiro de 2026. As consultas são feitas a cada três meses e têm ampla participação de mulheres.
Testemunhos sobre os ataques






No sábado, 7 de março, segundo dia do encontro, a programação incluiu visita ao bloco de La Soublette no setor de Rómulo Gallegos, Paróquia de Catia La Mar, estado de La Guaira, e à comunidade de Fuerte Tiuna, na comuna Heroínas de la Patria.
O primeiro local, La Soublette, foi um dos atingidos por mísseis norte-americanos que destruíram dezenas de residências, causando a morte de duas mulheres e deixando 14 feridos. Ouvimos relatos de mulheres lideranças locais, que são quase 80% do conselho comunidade. “Esse dia foi muito doloroso, despertamos com ruído de aviões, uma coisa horrorosa. As pessoas saíram e ajudaram as demais a sair. Uma senhora, Rosa Helena, morreu devido ao impacto do míssil que caiu onde ela estava dormindo. Outras sofreram fraturas. Mas aqui estamos em pé de luta e todas temos que estar fortes e levantar a cara e seguir a luta. Somos livres e soberanas sempre e Venezuela é um país aberto a todos mundo, mas que venham a trabalhar e lutar e conviver conosco em santa paz, não a atropelar-nos e aproveitar-se de nossas riquezas. É algo que todos temos que defender”, destacou Delfina García, chefa da comunidade, que chamou todas as mulheres a participarem da consulta popular.
Elpidia Moreno, da MMM de Cuba, lembrou as sanções contra seu país e afirmou que as mulheres seguem resistindo e criando, levando o exemplo de Fidel, que dizia que “a revolução se constrói sobre a base do sacrifício, da entrega e da decisão e da unidade. E quando falamos de dignidade cubana, temos que nos referir aos cubanos que caíram no dia 3 de janeiro em solo venezuelano. Ofereceram suas vidas para que Venezuela siga vivendo, para que Cuba siga vivendo e também para que América siga vivendo. Estamos seguras que Cuba e também Venezuela não estão sozinhas, temos a solidariedade internacional. Quando uma nação enfrenta, América avança, e quando uma nação decide lutar, América vence!”
O governador de La Guaira, José Alejandro Terán, lembrou os fatos que levaram ao nascimento da revolução bolivariana e a resistência a todos os tipos de ataques feitos pelo imperialismo. Em relação ao 3 de janeiro, lembrou os momentos de dor e angústia e também a solidariedade recebida imediatamente de todas as partes do mundo. “Vivemos uma vitória política, moral e ética do povo venezuelano, porque não conseguiram acabar com a força da Revolução Bolivariana: seguimos governando e garantindo a paz em nosso país”, afirmou.
Já a comuna Heroínas de la Patria, em Forte Tiuna, é o local onde helicópteros estadunidenses pousaram para sequestrar Maduro e Cilia Flores e levá-los para os Estados Unidos. O urbanismo possui 1.000 famílias e 3.557 habitantes, dos quais 254 são idosos. Há 82 crianças neurodivergentes ou com algum tipo de deficiência. No momento do encontro, havia cinco mulheres grávidas e 15 crianças lactantes. A comuna possui 36 torres de apartamento que, originalmente, estavam destinadas a pessoal militar mas, por decisão de Hugo Chávez, passou a ser moradia tanto de militares da forças armadas quanto civis. Moradoras compartilharam como foi acordar com sons e luzes de helicópteros e mísseis sendo lançados.
“No dia 3 de janeiro eu não estava aqui, mas estava. Meu filho conseguiu me mandar um vídeo e me disse ‘te amo’. Ele é gêmeo e disse: ‘nasci acompanhado e vou morrer sozinho’”, conta Melitza Peña, coordenadora da Sala de Autogoverno. “Posso contar minha história de outro lado, do que senti sendo mãe e sendo vizinha”, completou. Por celular, ela orientou uma vizinha do residencial a pegar a chave da clínica de saúde para que todos pudessem se abrigar nesse espaço, considerado mais resguardado. No dia 4 de janeiro, às 7h da manhã, como representante e responsável da sala de autogoverno, ela já estava no território, visitando casa a casa e vizinhos e dizendo “estou aqui”. O ataque deixou a população traumatizada. Há uma preocupação constante de seguir adiante e não reviver o episódio doloroso. “Estamos aqui e seguimos trabalhando como pátria livre que tem nome de mulher”.
Tamara Saavedra contou que estava com sua família no apartamento e, após um momento inicial em que pensavam que poderia ser um terremoto ou o fim do mundo, seu marido falou: “Não está tremendo, não está chegando Cristo. Estamos sendo invadidos, há um bombardeio”. Tratando de acalmar os cachorros e as crianças, veio um segundo bombardeio. “Abraçamos nossos filhos e nos despedimos. Dissemos que se acontecesse alguma coisa, o mais importante era que eles soubessem que os amamos desde o dia em que nasceram até esse momento, que pensamos que seria o último. Pude ver o terror em meus filhos, pude ver o terror em meus vizinhos”. E finalizou: “quem sobreviveu aqui nesta comunidade depois do dia 3 de janeiro efetivamente voltou a nascer. Aproveitem este tempo para demonstrar irmandade e unir-se”.
O governo venezuelano enviou psicólogos para que a comunidade pudesse lidar com o trauma e o pânico. “Qualquer ruído, as pessoas chegam às janelas. A luz para mim é fatal. À comunidade internacional e aos venezuelanos que estão fora do país peço somente um chamado à paz: Venezuela é um país acostumado a estar em paz, independente do país em que estejamos, somos irmandade, e Venezuela reconhece que o presidente, onde estiver, é um herói. Para mim, agora é que vem Venezuela e que vem nossa revolução para adiante”, contou Samaga Monzón.
“Senti quando a bomba explodiu e a luz foi embora; acordei minha filha e, para acalmá-la, disse que estávamos em um jogo. É um sentimento inexplicável isso de não saber se vai cair uma bomba ou não”, conta Elena Muñoz. Sua filha, Cristina, tem uma deficiência e ajudou a acalmar o cachorro da vizinha. “Há muitos vizinhos que estão fora; eu fui no dia seguinte em um táxi e, diante de mim, estava um caminhão com pessoas mortas. Foi horrível”.
Eusenis Fernández, do movimento nacional Mães Cuidadoras de Pessoas com Deficiência, conseguiu levar sua filha para a casa da irmã e voltar à comunidade de Forte Tiuna. Ela contou que sua irmã se indignou e perguntou porque ela tinha que voltar. “Nós, líderes, temos o compromisso revolucionário com nossas comunidades e não podemos abandonar a luta da comunidade”, respondeu.
“Estes relatos revelam que este povo é valente, é solidário e está decidido a sair livre, soberano e independente. São testemunhos que falam de dentro, porque assim construímos a revolução bolivariana, aos poucos, sacrificando e suportando de tudo”, afirmou a deputada Desirée Santos Amaral, do PSUV. “O império não suporta que os povos sejam livres, que sonhem, que queiram ser independentes. Nossa herança é muito grande e a recebemos de nossos libertadores e libertadoras. Por isso, não podemos renunciar a essa independência, a essa soberania e a essa pátria. Jamais vamos fazê-lo e não vamos nos render. Sequestraram nossos líderes, mas logo depois já estava outra mulher, valente, assumindo o controle e exigindo: ‘dê-nos prova de vida’. Digam se isso não é valentia, de um povo que há 64 dias segue lutando e vai realizar sua consulta popular porque aqui o povo manda”.
“Aqui lembramos que falar sobre nossas dores é importante, mas falar sobre nossas alegrias, sobre nossa esperança é fundamental para seguir adiante”, afirmou Estefane Silva, da MMM do Brasil. “O projeto do império norte-americano é de nos enfraquecer, destruir e dividir, mas nossa resposta é com unidade, com solidariedade internacional. É por isso que estamos aqui: para exigir a libertação imediata da primeira combatente Cilia Flores e do presidente Nicolás Maduro. Temos grande admiração pela revolução bolivariana, pela revolução chavista, porque desde sempre, desde o início, o feminismo popular, a luta das mulheres, estava no centro. Desde sempre aprendemos com a companheira Nalu Faria que não há socialismo sem feminismo, que não conseguimos uma revolução completa sem as mulheres”.
Estefane encerrou dizendo que nossa tarefa central é seguir em unidade da esquerda, em unidade popular dos movimentos feministas em todo o mundo: “Sairemos daqui com o compromisso histórico de falar para todos sobre as conquistas da revolução bolivariana, da esperança que ainda existe. Nada está perdido, nada está acabado. Ficaremos em pé até que venha abaixo o império norte-americano. Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!”
Em Forte Tiuna, as companheiras venezuelanas também prestaram homenagem aos mártires cubanos que morreram no ataque de 3 de janeiro. “Hoje, desde aqui, brindamos nossa solidariedade ao povo cubano. Honra e glória a todos, nunca os esqueceremos”. Elas destacaram o apoio fundamental do povo cubano com os médicos que chegaram a partir de 2002 e ajudaram em cada comunidade levando a medicina. “Foram os cubanos que chegaram e descobriram que havia muitas pessoas com deficiência, as quais nunca tinham sido visitadas antes da revolução bolivariana e lhes proporcionaram atenção integral em saúde”.
8 de março: plano de ação, carta de Maduro e consultas comunais





O domingo, 8 de março, Dia Internacional de Luta das Mulheres, iniciou com a apresentação e discussão do plano de ação da campanha internacional pela liberdade de Cília Flores. Na sequência, o deputado Nicolás Maduro Guerra, filho do presidente, trouxe uma carta do pai dirigida a todas as mulheres e destacando sua importância no processo da revolução bolivariana e das consultas comunais e a mensagem: “que ninguém roube nossa alegria, que não ganhe a agenda dos amargurados”.
Maduro Guerra lembrou que o processo bolivariano não iniciou com Chávez, mas sim há mais de 500 anos, com a resistência à colonização dos indígenas e africanos escravizados.
Durante a tarde do 8 de março, acompanhamos o processo de consulta na Comuna Socialista El Despertar del Onoto, que possui 15.860 habitantes e 5.190 famílias e está organizada em 13 conselhos comunais. Os projetos postulados nessa comuna incluíam temas como instalação de redutores de velocidade, recuperação de trilhas (caminhos), construção de um local para a funerária, entre outros. Cada comuna escolhe sete projetos prioritários dos quais os dois mais votados recebem recurso para execução imediata, em muitos casos, com a participação da população. As consultas comunais acontecem a cada três meses. Os projetos que não são eleitos podem ser reapresentados.
As creches e escolas para crianças com deficiência, por exemplo, síndrome de Down, foram temas identificados por elas. Compartilhamos com as mulheres experiências de cuidado coletivo realizadas no Brasil, como as lavanderias públicas e cozinhas comunitárias. O acesso à água e ao transporte público e mobilidade urbana também são temas a aprofundar.
O 8 de março se encerrou com uma ida ao passeio das Heroínas da pátria, em Caracas, um monumento inaugurado no dia 8 de março de 2025, que rende homenagem a 12 mulheres fundamentais na independência venezuelana e latino-americana: Apacuana, Luisa Cáceres de Arismendi, Cecilia Mujica, Eulalia Buroz, Josefa Camejo, Marta Cumbalé, Josefa Joaquina Sánchez, Barbarita de la Torre, Juana Ramírez “La Avanzadora”, Ana María Campos, Manuela Sáenz e Bartolina Sisa.
Importância do encontro
“Diante da inação, do silêncio e até mesmo dos aplausos que o bombardeio de Caracas recebeu dos governos de países de todo o continente, nada foi mais reconfortante do que o abraço das irmãs que participaram da primeira reunião da Brigada”, conta Alejandra Laprea, que é da Venezuela e uma das representantes das Américas no Comitê Internacional da MMM. “Com elas vieram saudações e consolo de nações e territórios irmãos. Para nós, é muito importante saber que não estamos sozinhas, que temos o apoio do internacionalismo fraterno e feminista”.
Ela completa: “Para a Marcha do continente, foi uma conquista significativa consolidar uma delegação de oito mulheres comprometidas, embora lamentemos que outras sete não tenham podido comparecer devido a restrições de voo e recursos. Agora, de volta para casa, nossa delegação tem a responsabilidade de adicionar mais mulheres à brigada, amplificar as vozes das mulheres que conheceram em Caracas, romper o silêncio da mídia e dizer ao mundo que ‘Libertem Cilia Flores e Nicolás Maduro’, para acabar com a agressão e as ameaças militares contra a Venezuela, para acabar com os bloqueios e as guerras econômicas contra Cuba e Venezuela, e afirmar que o Caribe e a nossa América são territórios para a construção da verdadeira paz”.
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Texto redigido por Alessandra Ceregatti e Estefane Silva, da MMM Brasil.
Fotos por Alessandra Ceregatti.